sábado, 12 de novembro de 2011

Escrito por regina Brett, 90 anos de idade, assina uma coluna no The Plain Dealer, Cleveland, Ohio.

 "Para celebrar o meu envelhecimento, certo dia eu escrevi as 45 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais solicitada que eu já escrevi."
Meu hodômetro passou dos 90 em agosto, portanto  aqui vai a coluna mais uma vez:

1. A vida não é justa, mas ainda é boa.

2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno.

3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.

4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.

5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.

6. Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar.

7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.

8. É bom ficar bravo com Deus; Ele pode suportar isso.

9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.

10. Quanto a chocolate, é inútil resistir. 

11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.

12. É bom deixar suas crianças verem que você chora.

13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.

14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.

15. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mas não se preocupe: Deus nunca pisca.

16. Respire fundo. Isso acalma a mente.

17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.

18. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.

19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.

20. Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.

21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chique.  Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.

22. Prepare-se mais do que o necessário; depois, siga com o fluxo.

23. Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.

24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.

25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você.

26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras "Em cinco anos, isto importará?".

27. Sempre escolha a vida.

28. Perdoe tudo de todo mundo.

29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.

30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo.

31. Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.

32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.

33. Acredite em milagres.

34. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez. 

35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.

36. Envelhecer ganha da alternativa "morrer jovem".

37. Suas crianças têm apenas uma infância.

38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou.

39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.

40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos  nossos mesmos problemas de volta.

41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.

42. O melhor ainda está por vir.

43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.

44. Produza!

45. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um "presente"."

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A missão de viver

Por Katia Gomes da Silva
Não faz sentido viver por viver. Pra viver, tem que ter vontade de viver. Já não dá mais pra viver descompromissadamente. Viver exige cuidar e cuidar tem relação com poupar, tratar, manter. Quem cuida sempre tem e pra isso a cidadania é o elemento mais significativo. A vida coletiva não é diferente da vida individual, é cuidar do que é nosso, do que deixaremos para os nossos filhos. Uma vez me disseram que rezar pra Deus é cuidar: é ser solidário com o vizinho, com o outro que nem conhecemos; é proteger a infância, as crianças que são de responsabilidade de todos nós. É plantar, cuidar dos animais. É limpar. É procurar a alegria e a boa vontade. É estar disposto. É lutar por si e pelos demais. Rezar é buscar o equilíbrio do mundo e das coisas. É crescer com sustentabilidade. É ter cuidado, é prezar, é ter consciência. Rezar não é ficar pedindo pra ter o melhor carrão, a mansão e ficar rico. Rezar é se ligar a Deus, pensando o bem, fazendo o bem, para transformar as coisas, afinal “gentileza gera gentileza”.
 É claro que a questão-chave disso tudo está na educação, na ação de educar. No sentido mais amplo da educação, de responsabilidade de todos nós, ao darmos o exemplo para que as coisas boas sejam repassadas. Conseguimos uma sofisticação impressionante de sociedade, mas nos perdemos em paixões, paixões no sentido de estarmos movidos por sentimentos irracionais, pois são elas também que nos configuram como humanos e não máquinas. Não devemos perder nossa sensibilidade, mas precisamos nos comprometer com o “pacto social” (fazendo uma referência à política clássica), e também entender e praticar o sentido real da Revolução Francesa (nos lemas: fraternidade, igualdade e liberdade).
A escola é o ambiente em que precisamos nos esforçar ainda mais e lutar por sua proteção e qualidade. Ali o mundo é gerado, ali nascem idéias, conceitos são passados. É onde está nossa sobrevivência, científica e cultural, e é lugar propício para perpetuarmos nossos desenvolvimentos sociais. O ponto aí são os profissionais da educação que precisam ter uma formação de qualidade e serem valorizados profissionalmente. Por meio da educação, um novo mundo é possível, mais justo e igual. O bem, a ética e a justiça são idéias e ações que são passíveis de aprendizagem e apreensão, logo são possíveis, não é utopia, podem ser sim realidade. Basta querer meu Brasil!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Saberes interligados

Por Katia Gomes da Silva
O tempo não para. Estamos em constantes mudanças e com elas vêm os avanços tecnológicos e novas formas de pensar o mundo. A escola e a educação estão dentro desse processo. Portanto, é necessário haver a eterna preocupação em se atualizar. O ensino tradicional, conhecido e trabalhado da mesma forma ainda nos dias atuais, deve ser repensado, a fim de corresponder às demandas desse novo mundo que já nos abriu as portas.
A forma mais comum de aprendizagem consta de disciplinas separadas em tempos de aulas, formando os alunos dentro do universo daquelas matérias de forma cartesiana, isto é uma visão linear das coisas, megaespecializada, entendendo a ciência em suas minúcias acadêmicas pela busca do máximo do aprofundamento para se aprender e, conseqüentemente, depois divulgar para a sociedade.
Essa visão que fragmenta os estudos não deve ser abandonada. Entretanto, ela deve dar conta de outras partes para que haja a composição do todo novamente. É como aprendemos no colégio, com a famosa frase de Gestalt, “o todo é a soma das partes”. Contudo, muitas práticas pedagógicas não se preocupam em fazer esses links depois. Com isso, a aprendizagem fica comprometida ou vista como sem sentido para muitos alunos.
O mundo está cada vez mais interligado, com notícias aparecendo instantaneamente com fácil acesso a todos. Estar preparado para saber criticar as informações recebidas, assim como transformá-las em formas úteis de trabalho ou saber mudar a vida tal qual ela nos é apresentada é um desafio atual para todos os viventes. A escola tem que se preocupar com isso, ou seja, deve inovar suas práticas pedagógicas de forma a mostrar o conhecimento mais integrado, trazendo uma visão mais abrangente das coisas, mais totalizado. Isso é possível por meio da interdisciplinaridade.
Esse nome comprido e que está em voga nada mais é do que integrar os saberes. Sua finalidade é em esclarecer o conhecimento para além dos limites e fronteiras existentes nas disciplinas. De forma dialógica, as disciplinas diversas se complementam para explicar um assunto que terá mais facilmente em ser aprendido se for para além dessas fronteiras, das matérias fragmentadas.
Pensar o aquecimento global, a globalização ou a democracia, por exemplo, é necessário ultrapassar as divisões demarcadas nas disciplinas. Por meio dessa interação, o saber se torna mais interessante e mais completo. Assim, o aluno possuirá mais noção sobre a composição das partes fragmentadas em disciplinas e também saberá coordená-las, vendo a junção das diferentes partes que estão tentando dar conta das complexidades da vida.
Não se trata de uma competição das disciplinas, muito menos o esvaziamento delas, ao se unirem para enriquecer o ensino, logo demonstrarão com mais propriedade os diferentes ângulos da vida.  Trata-se de ressignificar os métodos pedagógicos e repensar os conteúdos, organizando e divulgando os conhecimentos de maneira articulada para que os alunos estejam preparados para as demandas da vida em sociedade, respondendo às exigências impostas por esse mundo globalizado e interligado, do qual todos nós fazemos parte.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Onde estará o meu amado?

Por Katia Gomes da Silva
Onde poderá estar o meu amado? Próximo? Distante?
Onde estará o meu amante?
Será que ele está a me imaginar como eu seria, assim como eu fico?
Ou pode estar ele à toa a princípio?
Estará ele a passear, a cantar, a se divertir, nesse momento?
Ou pensa que sua vida é um tormento?
Estará ele acompanhado ou estará sozinho?
Quando ele esbarrará no meu caminho?
Será que ele pensa, em um dia, me encontrar?
Será que ele está perto de me achar?
Isso acontecerá como puro acaso do destino?
Ele estará a me procurar como em desatino?

Quando irei conhecê-lo?
Quando terei-o?

Quanto amar-te-ei?

Um dia, meu bem,
Nossas vidas se tocarão
E tal como a eterna renovação
Ao som da canção
Nossos corações dançarão
No compasso sincopado do samba

Beijos de quem não o conhece e já o ama...

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Conversas com meu pai

Por Katia Gomes da Silva
Numa dessas saídas com meu pai, ele estava a falar dos antigos bailes de interior os quais ele participava em sua mocidade, isso por volta da década de 1950. Ele me dizia “aquilo que era música, aquilo que era dança. Tudo arrumado, com muito respeito, não era essa bagunça de hoje em dia. Eu gostava de tocar instrumentos e dançar até o dia amanhecer. Os bailes e as festas eram preparadas com semanas de antecedência, com muita comida, e as mulheres se preparavam passando banha nos cabelos.” Fora a parte da banha, todo o resto me encantava, ficava a imaginar esses bailes em minha mente.
Meu pai sempre “arranhou” em alguns instrumentos musicais, talvez seja por isso que eu admiro tanto os músicos, a questão do ouvido para a música e principalmente quanto à disciplina. Também deve ser uma das razões que me fizeram querer cantar em coral e fazer dança de salão. Meu pai não entendia direito sobre o coral, mas ficou animado com a dança, perguntou-me se eu já tinha aprendido marcha, rumba etc, eu expliquei que eles ensinavam outros ritmos, falei do bolero e ele logo questionou de que tipo e listou alguns, dos quais só me recordo o nome bolero mambo. Disse-lhe que era bolero, bolero, ele respondeu apenas um  “sei”. Acho que não o convenci muito e mostrei minha quase total ignorância no assunto. rs
Um pouco mais de conversa e ele começou a contar sobre as enormes casas da roça e dos seus tipos e estilos. Ele quis saber se eu conhecia a casa de sapê, contei que só conhecia pela música. Depois ele comentou sobre os animais que ele convivia, falou-me de uns bichos que nunca ouvi o nome e ele percebeu minha surpresa. Ele logo suspira “essa vida da cidade...”.
Mais tarde, ele avistou uma árvore e perguntou-me o nome. Eu disse que não sabia. Meu pai quase que indignado me indaga: “minha filha, pra que você estuda tanto se não sabe nada das coisas da vida?”. Só pude responder: “É pai (detalhe que ele não tem nem o primário completo), o Sr. tem toda a razão...”

domingo, 21 de agosto de 2011

A casa dos saberes

Por Katia Gomes da Silva
As chaves fecham e abrem o livre desejar,
As cortinas sabem de desejos
que eu nunca pensei em contar.


Livros da estante acusam de não terem sido lidos,
As gavetas denunciam passados mantidos,
O guarda-roupa me alerta que há sentimentos a serem vestidos.


No banho, a água me bebe
E percebe
A agonia de problemas não resolvidos,
O fogão aquece sonhos perdidos,
A geladeira mantém pensamentos esquecidos.


Nos lençóis, repousam milagres abandonados,
O alarme desperta medos silenciados.


Os cd's entoam a voz da consciência,
O sofá senta as decisões com veemência.


Sob a mesa, estão contas vencidas de um futuro incerto
As janelas refletem a sombra do amor, que de perto,
Clama a paixão prometida.
A porta vigia a busca da solução, da melhor saída.


O ventilador refresca idéias inutilizadas,
A tv apresenta vontades acabadas.


O rádio narra notícias distantes do vizinho ao lado
A cama inflama e procura o corpo do amado.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CRIADO-MUDO

De: Mário Prata (do livro "Minhas Tudo")

Tudo começou quando resolvi me mudar do décimo para o quarto andar, aqui mesmo, neste edifício da alameda França. Um carrinho de supermercado seria o suficiente. Queria fazer lá embaixo um lar, já que isso aqui virou um vício. E, como todo vício, tesão! Lá no quarto andar, tem 4 apartamentos. Eu não conhecia ainda os vizinhos quando o fato se deu. Passei o dia levando coisas lá para baixo. Há dois dias faço isso ajudado pela Cristina. Uma das últimas viagens e lá ia eu com a Cris ao lado, descendo pelo elevador. Carregávamos o criado-mudo. O criado-mudo tem uma gavetinha. Quando a porta se abriu, tinham duas famílias esperando. Meus vizinhos. Pai, mãe, crianças e até uma avó. Foi quando eu estendi o braço para me apresentar como o novo vizinho que tudo aconteceu. E foi muito rápido. Muito. Quando eu tirei a mão do movelzinho para cumprimentar aqueles que agora são meus vizinhos, a gavetinha deslizou. Eu ainda tentei uma gingada com o corpo pra ver se evitava a catástrofe, mas não adiantou. A filha da puta estava indo para o chão, lisa como quiabo. Estava indo para o chão com tudo dentro. E não existe nada mais indiscreto que uma gavetinha de criado-mudo de um homem que mora sozinho. Ou mesmo que não more. Ali você vai jogando coisinhas, papéis. Coisas, enfim. Coisas que só têm um destino na vida: a gavetinha do criado-mudo. Entre a danada escapar do móvel e esparramar tudo pelo chão, não devem ter sido nem dois segundos. Mas estes dois segundos foram sofridos. Neste pedacinho de tempo tentei, em vão, me lembrar do que era que tinha lá dentro e, conseqüentemente, toda a vizinhanca ia ver. Além da Cristina. Não deu outra. A gaveta caiu de quina e tudo voou. E voou tudo de cabeça prá cima, tudo querendo se mostrar. Ar livre. Há quanto tempo aquilo tudo não via a luz do dia, já que ficavam debaixo do abajur lilás? E não ficou tudo amontoadinho, não. O material se esparramou legal pelo hall. Diante do que vi no primeiro bater de olhos, a ideia foi pular em cima e cobrir tudo com o corpo até todo mundo sumir dali. Sim, na gavetinha do criado-mudo a gente joga tudo. Pelos meus cálculos, devia ter coisas ali dos últimos cinco anos. Que, é claro, eu não saberia dizer. Eu não tinha ideia do que é que estava indo para o chão e aos olhos da vizinhanca estupefata. Um pedaço da minha vida estava ali, no chão, sujeito à visitação pública. Uma vergonha. E o pior é que não dava para pegar tudo de uma vez.Teve pilha que rolou escada abaixo. Moedinhas rodopiavam sem parar, fazendo aquele barulhinho. A primeira coisa que a Cristina recolheu foi um par de brincos douradérrimos. Que não eram dela. E eu não ia explicar ali que eu não tinha a menor idéia de quem fossem. Podia estar ali há cinco, seis anos. As crianças olharam para três camisinhas e deram-se sorrisos cúmplices. Não foi bem este o olhar da Cris. Aquele pequeno despertador quebrou o vidro. Estava parado às 10 e 10 do dia 23, sabe-se lá de que mês ou ano.Três edições da Playboy Velhas. Uma daTiazinha. Constrangimento. Prá minha sorte, bem ao lado caiu a História da Filosofia, de I.Khlyabich. E o livro daquela jovem namorada do Sallinger, do Apanhador no Campo de Centeio. Amenizou um pouco. Trata-se de um masturbador de campo de pentelhos. E as camisinhas eram de 98, tava escrito lá. Limpou um pouco a barra. Um pouco. Sim, por outro lado, mostrava que desde 98 que eu... deixa prá lá.Tinha o menu da minha aula de culinária de março. Naquele dia aprendi a fazer crepe de pancetta e brié, com a professora Bia Braga, junto com o Frei Betto, aluno também. Tinha procurado tanto o Guia de Acesso Rápido do celular. Tava lá. Agora eu ia aprender a apagar os telefones vencidos da caixa. Meu Deus, o que é aquilo no pé do garoto? Viagra! E o filho da puta pegou e mostrou para o pai que me olhou com pena, com dó: tão jovem e... Tive que dar explicações: - Hehe, é o Jair, que é do 103, psicanalista, amostra grátis, aí. Tem dois. Já ia dar uma explicação da experiência que tinha tido com o que não estava mais ali, mas achei que os pais não iriam ouvir de bom grado, diante das crianças. Viagra é a maior sujeira, posso te garantir. Acho que não convenci ninguém. Cris, com os alheios brincos na mão, escondeu o Viagra. Vexame total. Mas isso era só o começo da minha ida esparramada no chão de mármore.
- a conta da compra do computador que eu dei para a minha irmã;
- duas pilhas Duracell que jamais saberemos se estão boas ou já usadas. Esse
problema de pilhas soltas me enlouquece;
- sabe aquelas moedinhas de orelhão que não funcionam mais? Várias;
- uma foto minha com a atriz Manoella Teixeira, abraçados na porta do Ritz (isso
foi há dois anos, fui logo explicando);
- uma cartela de Lexotan, uma de Frontal e uma de Zoloft. Pronto, os vizinhos não
teriam mais dúvidas. Um louco deprimido se aproximava;
- quatro canetas BIC que eu duvido que ainda funcionem;
- uma capinha de celular que eu comprei há uns quatro anos e não serviu;
- uma caneta dessas de marcar texto, aquela amarela, sabe? Seca, é claro;
- um tubo de Redoxon, vencido há várias gripes;
- um lápis sem ponta, aliás, dois;
- um papelzinho com um telefone que jamais saberemos de quem é;
- outro papelzinho com um telefone (procurei tanto... Agora não vai mais adiantar);
- um benjamim;
- um tubo (suspeitíssimo) de Hipoglós;
- mais uma cartelinha (quase vazia) de Frontal;
- um disquete de computador sem nada escrito nele. O que pode ter aqui?;
- um par de óculos escuros que nunca foram meus;
- umas cinco ou seis chaves que nunca saberei que portas abrir;
- dois tubos de KY, que quem sabe o que é pode imaginar o meu ar de sem jeito. E o cara do 43 levava jeito de saber, pela olhadinha que deu para a esposa que ficou
vermelhinha. Ela devia gostar de KY;
- um livrinho mandado (e escrito) por um leitor, com o nome Ser Gay é Ser Alegre. Como explicar isso de joelhos?;
- e, para encerrar o meu derrame, um papel em branco com um beijo de batom vermelho, bem no meio. Tentei dizer que era da minha afilhada, Maria Shirts, mas não colou. Fui recolhendo aquilo tudo, aqueles pedaços da minha vida e colocando de novo dentro da gavetinha. E me levantei. Entramos em silêncio no apartamento, certo de que ia começar uma nova vida ali. Mas logo cheguei à conclusão de que a gente nunca começa nada, a gente continua.Ajeitei o criado-mudo ao lado da cama. Fiquei olhando para o indiscreto móvel que eu achava mudo. Mas que, em dez segundos, contara cinco anos da minha vida.